sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Arrependimento e hipocrisia

Um dos autores do pedido de "impeachment" da presidenta Dilma Roussef, o jurista Hélio Bicudo, declarou, nesta semana, que defende a mesma providência para o atual presidente da república. Para ele "Michel Temer jamais deveria ter chamado Geddel Vieira Lima para o seu ministério". Com todo o respeito que o jurista merece, por ter sido um promotor de justiça combativo na defesa dos direitos humanos, em um período que essa atuação era muito perigosa, ele está, desta vez, engrossando um contingente de hipócritas.
Não é o caso de se fazer reparos ou substituições pontuais no governo golpista. A composição do governo Temer não é sua característica mais importante, apesar de ser questionável a presença de acusados e suspeitos de corrupção no primeiro escalão. O objetivo mais importante do governo golpista não tem nada a ver com a defesa da ética na política, ainda que tenha se valido desse argumento para usurpar o mandato da presidenta Dilma Roussef. O principal intento do golpismo é a implantação de um governo subserviente ao mercado financeiro e à economia internacional comandada pelos Estados Unidos da América do Norte.
O jurista Hélio Bicudo, assim como os paneleiros arrependidos, deveriam pedir desculpas à sociedade brasileira, por terem reforçado a política de cortes de investimentos e gastos públicos, a verdadeira face do golpismo. Deveriam, também, fazer autocrítica pública de seu comportamento recente, pois a cruzada moralista da qual participaram serviu, somente, para legitimar medidas contra as classes populares e contra a maioria da população. 

A tragédia e a ganância criminosa do capitalismo

A suspeita de que o avião que caiu na Colômbia estava sem combustível é uma constatação grave que, se confirmada, pode resultar no cancelamento da autorização da companhia aérea para voar. A tragédia poderia ter sido evitada se a ganância da empresa, não tivesse sido tão grande ao abastecer a aeronave. 
Investigações ainda em andamento, indicam que o combustível do avião era suficiente apenas para a viagem entre o aeroporto de saída e de destino, sem uma gota de reserva, o que era uma atitude usual da empresa.
As vidas que foram perdidas no acidente, infelizmente, não serão recuperadas. A tristeza das famílias e dos amigos dos mortos não será atenuada com a possível descoberta. A punição da empresa aérea, por mais rigorosa que seja, não vai reviver os que morreram nem diminuir as lágrimas dos que perderam seus entes queridos, mas deve servir de exemplo para que outras tragédias sejam evitadas.
A cultura do lucro fácil, com o menor risco possível, talvez tenha sido responsável, também, pela contratação da empresa aérea para o transporte dos atletas da Chapecoense. Dirigentes do clube catarinense podem estar arrependidos, mas a tristeza da ocasião impedirá qualquer tipo de investigação que possa concluir sobre a responsabilidade deles na tragédia.
A reflexão necessária, no entanto, deve ir muito além das punições. O episódio deve reforçar a consciência de que a ganância, em muitos casos, pode ser responsável por acontecimentos trágicos. É preciso combater, sempre, a ganância criminosa e assassina de empresas e empresários, estimulada por regras estabelecidas pelo sistema capitalista.
Independentemente da condenação de pessoas e da responsabilização da empresa aérea, a reflexão urgente e necessária, sobre o episódio, deve nos fazer concluir que o futuro da humanidade não pode estar subordinado à esperteza empresarial. A prioridade deve ser das pessoas que habitam o planeta. Qualquer medida gerencial, que vise a maior lucratividade dos negócios, deve estar sempre subordinada à preservação da vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Juventude e mídia alternativa

A maioria da população tomou conhecimento da morte de Fidel Castro pela televisão, e pôde ver a "comemoração" de cubanos residentes nos Estados Unidos da América do Norte, o que contribuiu para a disseminação da falácia de que existe uma forte oposição ao governo da ilha Caribenha. Na introdução do noticiário, os telejornais apresentaram o comandante Fidel Castro como "ditador comunista", reforçando uma inexistente relação entre autoritarismo e comunismo. 
A veiculação de opiniões, notícias e informações é uma maneira eficaz de influenciar a opinião pública. Muito distante da neutralidade apregoada por ela mesma, a mídia tradicional tem lado, e sempre se posicionou ao lado do capitalismo, por convicção conservadora de seus proprietários ou somente para atender seus anunciantes. 
Todos nós sabemos que as instituições bancárias são locais horríveis para se trabalhar. Também é de conhecimento público a alta lucratividade dos bancos, mesmo em tempos de crise. O noticiário da mídia tradicional nunca noticia ocorrências de assédio moral contra trabalhadores em estabelecimentos bancários. Também não se vêem, no noticiário dos grandes veículos de comunicação, notícias sobre a alta lucratividade do sistema financeiro.
A explicação para a omissão midiática, no caso dos bancos, está na forte presença das empresas de crédito entre os grandes anunciantes da mídia tradicional. Como em todos os setores do capitalismo, "quem paga a banda, escolhe a música", ou neste caso específico, quem veicula publicidade, censura a divulgação de notícias que possam lhe desagradar.
O comportamento midiático condenável, entretanto, não acontece apenas por motivos políticos, ideológicos ou econômicos. O tratamento com a juventude da periferia é um exemplo de como os veículos de comunicação criminalizam os construtores do futuro. Nos finais de semana acontecem, em vários bairros de São Paulo e de outras cidades, shows musicais, encontros religiosos e eventos esportivos com a participação de centenas (talvez milhares) de jovens. A divulgação desses eventos públicos é uma raridade no noticiário dos grandes veículos de comunicação.
Ainda sobre os jovens, a fabulosa mobilização que ocupa escolas públicas, que se opõe a propostas de reforma da educação e que exige melhorias na qualidade do ensino é tratada, pelos grandes veículos de comunicação como um ajuntamento de vândalos sem consciência, numa clara tentativa de criminalização do mais importante movimento social dos tempos atuais.  
Diariamente, por outro lado, ocorrências policiais violentas, envolvendo jovens e menores de dezoito anos, têm espaços garantidos na grade de programação das emissoras de rádio e de televisão e nas páginas dos jornais. O comportamento midiático, neste caso, contribui para reforçar discursos retrógrados em favor da diminuição da maioridade penal, reforçando, na opinião pública, um senso comum tendente a criminalizar (e punir) as futuras gerações. 
A mídia tradicional (parcial, tendenciosa e subserviente a interesses econômicos) precisa ter uma contrapartida. Hoje isto acontece através de veículos de comunicação da mídia alternativa, especialmente sites de notícias e blogs de opinião. O alcance destes veículos alternativos, infelizmente, ainda é muito pequeno para fazer frente ao poderio da mídia tradicional.
Para divulgar notícias, informações e opiniões que contribuam para a disseminação de valores e costumes mais condizentes com a boa convivência entre os seres humanos, será preciso transformar bastante o panorama atual, e não existe outro caminho que não seja o fortalecimento da mídia alternativa. Esta é uma tarefa urgente. 
Mesmo diante de um cenário muito difícil, há quem aposte no fortalecimento de outro tipo de mídia, que defenda os interesses populares e que divulgue a verdade. Neste final de semana, mais exatamente no sábado (3 de dezembro), a partir das 16 horas, acontece a formatura da turma de 2016 da Escola de Jornalismo do Projeto "Énóis". O evento vai acontecer na sede do projeto (Rua Alfredo Maia, 506, próximo à estação Armênia do Metrô). O futuro será protagonizado e escrito por mulheres e homens como os que receberão seus certificados neste sábado. É assim que vamos construir, no futuro, um mundo mais justo e mais igualitário, com valores fraternos e humanos e com informação de qualidade.

Imunidade e impunidade

O combate à impunidade em casos de corrupção não pode justificar a imunidade de acusadores e julgadores. Não são poucos os casos em que juízes e promotores, protegidos pela imunidade dos seus cargos, punem, antecipadamente, acusados e suspeitos que, ao final de processos judiciais, são declarados inocentes. 
O sensacionalismo midiático sempre destaca o papel de promotores e juízes, e colabora com a condenação prévia de acusados que ainda não tiveram o direito de se defender. A democracia e a civilização humana não podem mais conviver com imunidades injustificadas e com punições antecipadas.
O processo político brasileiro, no período mais recente, teve a presença destacada de promotores de justiça e de magistrados. A mídia tradicional, a serviço do golpe parlamentar, exibiu, em horário nobre, as presenças e as opiniões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), de juízes federais, e de procuradores e promotores de justiça, notadamente contra figuras públicas do PT. Atores importantes da história brasileira, protagonistas da luta política, perderam espaço no noticiário dos grandes veículos de comunicação e, quando apareceram, foram apresentados como criminosos, ainda que fossem apenas acusados ou suspeitos.
Há uma contribuição decisiva da mídia tradicional, do ministério público e do judiciário para que mandatários públicos sejam, hoje, execrados pela opinião pública. A enorme quantidade de abstenções e de votos nulos e brancos, nas eleições mais recentes, é uma demonstração clara do desgaste generalizado da política e dos mandatários públicos.
O destaque midiático de juízes e promotores, por outro lado, fez com que eles se sentissem como se fossem infalíveis, e contribuiu para que pareceres e opiniões fossem entendidas, pela opinião pública, como sentenças definitivas e irrecorríveis.
São estes aspectos específicos que devem ser considerados, na avaliação da decisão do parlamento brasileiro que instituiu o crime de responsabilidade para juízes e promotores. É óbvio que existem parlamentares que buscaram, com seu voto, assegurar a própria impunidade, mas a imunidade de magistrados e de representantes do ministério público é injustificável, especialmente porque pode perpetrar uma situação em que pareceres e decisões provisórias podem se transformar em sentenças, na avaliação da opinião pública.
O pronunciamento de promotores federais da operação "Lava a Jato", ao afirmarem que não mais atuarão nas investigações, é um indicador perigoso de que planejam ações questionáveis e ilegais. Ao mesmo tempo, a ameaça também transparece como uma espécie de contribuição não explícita para "estancar" a operação, antes que ela chegue a figuras públicas do governo golpista, como pretendeu um senador da república que já foi ministro do governo federal.
É preciso encontrar meios legais para a manutenção do estado democrático de direito que garantam o fim da imunidade de juízes e promotores e que, ao mesmo tempo, assegurem a punibilidade de pessoas que sejam declaradas culpadas, resguardado o seu direito de defesa. O pronunciamento dos promotores federais, em defesa da própria imunidade, não pode servir de desculpa esfarrapada para a retirada do time de campo, o que pode contribuir para a perpetuação da impunidade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A violência do golpismo sem razão

O senado da república aprovou, na noite desta terça feira (29 de novembro), Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congela gastos e investimentos públicos por vinte anos. Somente quatorze senadores votaram contra a proposta do governo golpista.
Outros sessenta e um senadores votaram a favor da ideia. Ainda haverá nova votação (em segundo turno), mas tudo indica que a PEC será aprovada e enviada para sanção presidencial.
Em defesa da aprovação, os golpistas argumentam que não haverá redução de recursos financeiros nas áreas de saúde e de educação, mas a metodologia golpista desmente o discurso demagógico e falacioso. Seria desnecessário mexer na constituição se não fosse para reduzir gastos públicos essenciais, com obrigatoriedade percentual mínima.
Movimentos sociais se mobilizaram para protestar contra a PEC do fim do mundo. Mais de dez mil pessoas estiveram em Brasília nesta terça feira. Para que os senadores votassem sem a interferência das galerias, a repressão foi implacável contra os manifestantes. O uso da violência não seria necessário se a PEC fosse justa e correta. O recurso a bombas de gás, balas de borracha e cassetetes é próprio de quem não tem bons argumentos para defender suas ideias.

Fidel Castro: para sempre

É óbvio que o noticiário da mídia tradicional, ao se referir ao comandante Fidel Castro, iria reforçar o senso comum anti-comunista já existente na opinião pública brasileira. Era esperado também que as notícias sobre o desaparecimento do líder cubano servissem para a exibição de cenas de comemoração da morte, protagonizadas por pessoas nascidas em Cuba, mas que vivem nos Estados Unidos da América do Norte.
A exibição de cenas de comemoração da morte do líder cubano, no entanto, não puderam esconder as conquistas da revolução da ilha caribenha. Não há como não dizer que naquele país da América Central não existem analfabetos e que o sistema de saúde cubano é um dos melhores do mundo. Também é difícil ocultar as inúmeras manifestações de agradecimento do povo cubano a Fidel.
O objetivo da mídia tradicional, ao divulgar a morte, é especular sobre a possibilidade remotíssima de que o socialismo cubano esteja com os dias contados. As próprias manifestações de populares que participam das solenidades de despedida do líder cubano desmentem a falácia midiática. A presença de mais de um milhão de pessoas no ato público de adeus a Fidel também vão em sentido contrário dos grandes veículos de comunicação. 
Um dos depoimentos mais emblemáticos da lotada Praça da Revolução foi o de Nieves Carrillo, de 66 anos. Ela disse que foi à praça para "agradecer Fidel Castro como mulher e como negra". Ela contou que é "bisneta de uma escrava" e que teve a oportunidade de "estudar na universidade". Depoimento importante, também, foi o do cubano de nome Alberto. Ele afirmou que "Fidel não se foi, continuará vivo em nosso pensamento".

A tragédia e a busca da paz e da integração do continente

Não há como ser insensível à dor da perda das vidas dos passageiros do avião que caiu na Colômbia na madrugada desta terça feira (29 de novembro). Um time inteiro de jogadores de futebol, inclusive a equipe técnica, estava na aeronave. Junto com a equipe da Chapecoense viajavam jornalistas e dirigentes esportivos. Setenta e sete pessoas viajavam na aeronave. Apenas seis sobreviveram.
O sentimento de pesar dos familiares dos mortos e dos torcedores da Chapecoense, neste momento triste, é compartilhada por todas as pessoas que souberam da tragédia. O momento triste é uma oportunidade para que possamos refletir sobre a efemeridade da vida na terra. O time, que perdeu jogadores e comissão técnica, estava prestes a jogar a decisão de um importante torneio continental de futebol. O sucesso esportivo foi tragicamente interrompido pelo desastre aéreo.
Não há como não se entristecer com o acontecimento. No avião estavam pessoas que serão pranteadas por seus amigos e familiares, mas que, muito especialmente, serão lembradas, sempre, como disseminadores de sonhos e como propagadores da integração humana proporcionada pelo esporte. A tragédia da madrugada desta terça feira deve reforçar o sentido integrador da atividade esportiva. Eles serão lembrados, em todo o mundo, como integrantes de um exército em defesa da paz e da integração entre as pessoas.