sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O golpismo e o conteúdo da luta política

A denúncia de um ex-assessor do presidente sem voto, que pode implicar, negativamente, um dos principais auxiliares de Michel Temer, tem o objetivo de sacrificar mais um integrante do dispositivo golpista, com o objetivo de manter a essência do golpe.  
Trocas de cadeiras na Esplanada dos Ministérios, inclusive a substituição de um ministro tucano por um peemedebista, servem à mesma finalidade. Para os golpistas, é essencial assegurar maioria parlamentar suficiente para a implantação de medidas econômicas de interesse do mercado, e as movimentações palacianas devem servir a este objetivo central. 
Problemas, como os enfrentados com Eduardo Cunha, serão tratados de forma semelhante, com a demissão e, se for o caso, com a prisão do acusado. Figuras públicas descartáveis aceitarão, sem reclamar, as punições, e o presidente sem voto continuará sendo protegido contra qualquer tipo de acusação.
A impunidade, antes reservada, indistintamente, a todos os colaboradores do golpe, vai se restringindo a algumas figuras essenciais. Não será surpresa se alguns integrantes do governo sem voto forem defenestrados, assim como aconteceu com Eduardo Cunha.
Os golpistas pretendem limitar o enfrentamento ao espaço institucional. A pretensão é afastar o PT e a esquerda dos debates (incluindo os movimentos sociais populares), de modo a assegurar que as alternativas políticas fiquem restritas a uma disputa entre os ruins e os piores.
Outro propósito golpista é a limitação do conteúdo do debate ao tema da corrupção política. As decisões sobre punições e defenestrações ocuparão o centro das preocupações, excluindo, tacitamente, qualquer possibilidade de discussão sobre propostas de desenvolvimento econômico com distribuição de renda.
O desafio mais importante para as pessoas que se guiam pela defesa do socialismo e da democracia será de seguir no sentido oposto do golpismo. Resistir às malvadezas do governo sem voto, e continuar a luta por nenhum direito a menos, é apenas uma parte da nossa tarefa. Será preciso inverter a lógica determinada pela política tradicional, e lutar pela conquista de mudanças que favoreçam os trabalhadores e as classes populares.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Delações mentirosas

A revelação de que um ex-diretor da Petrobrás mentiu, por várias vezes, em depoimentos prestados ao judiciário, resume bem o que significa, para a história, o instrumento da delação premiada. O mentiroso contribuiu para o desgaste de figuras públicas que nunca terão suas culpas comprovadas.
Mas o mentiroso não agiu sozinho para provocar a desmoralização pública, dirigida, na imensa maioria das vezes, contra petistas e aliados do PT. Quem colheu os depoimentos mentirosos deu um jeito do seu conteúdo vazar para a mídia tradicional, que reproduziu o conjunto de mentiras que, assim, passou a ser visto como verdade pela opinião pública.
O delator mentiroso perderá os benefícios que havia negociado antes dos depoimentos. Juízes, promotores e veículos de comunicação, no entanto, permanecerão impunes, reproduzindo a mesma prática outras vezes, muito provavelmente, contra as mesmas figuras públicas que o golpismo pretende desgastar junto na opinião pública.
A delação premiada é um instrumento jurídico execrável. Além de possibilitar a concessão de benefícios, como a redução da pena, a criminosos confessos, a deduragem é um mau exemplo para as futuras gerações. Delações recentes se referem, em grande parte, a integrantes do governo sem voto. A mídia tradicional silenciou sobre o conteúdo das novas denúncias. Os paneleiros sumiram das ruas e praças, mas isto não significa que a atitude passou a ser uma coisa boa. 
Não é por apontar na direção de golpistas que os delatores passaram a ser exemplos de boa conduta. Continuo pensando como sempre pensei. Dedo duro, independentemente de quem ele aponte, continua sendo, somente, um delinquente que denuncia seus comparsas, neste caso, em troca de benefícios no cumprimento da pena que a justiça lhe atribuiu.
Além da impunidade, no caso da mídia tradicional, quando a mentira é detectada, a correção nunca ocupa o mesmo espaço que da denúncia mentirosa. Denunciados e suspeitos, alvos de delações mentirosas, deveriam ter espaço proporcional para corrigir as informações. Juízes e promotores que facilitaram (ou promoveram) o vazamento de depoimentos, por qualquer motivo, deveriam ser impedidos, para sempre, de exercerem cargos na magistratura e no ministério público.

O laboratório do ódio e da insensatez III

Um vereador da cidade de São Paulo, eleito pelo DEM, ganhou notoriedade por causa de sua participação em manifestações que reforçaram o golpe que destituiu a presidenta Dilma Roussef. A votação que ele recebeu, muito provavelmente, tem a mesma origem de simpatizantes de Jair Bolsonaro e do Pastor Feliciano, defensores de teses preconceituosas, racistas e homofóbicas.  
As proposições do vereador do DEM confirmam suas ideias retrógradas. Ele anunciou que vai propor a extinção do feriado do Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e o fim das cotas raciais nos concursos públicos do município.
Na última semana, ele comandou uma invasão a uma reunião que acontecia na liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara Municipal. Os grandes veículos de comunicação, agindo dentro da lógica de reduzir o problema a um desentendimento entre parlamentares e partidos políticos, divulgou episódio sem se referir ao conteúdo das ideias do vereador do DEM. 
O problema é muito mais grave e mais profundo. Embora eu seja petista de carteirinha, não acho que a questão se resuma a uma agressão contra o meu partido. É óbvio que qualquer tipo de atitude desse tipo deve ser repudiada, mas o protesto mais veemente deve acontecer contra as ideias defendidas pelo vereador, que provocaram a invasão à liderança do PT.
É preciso vencer os limites impostos pelas regras da institucionalidade e pela mídia tradicional. É urgente superar o comportamento odioso e insensato de pessoas como o vereador do DEM, que defendem ideias odiosas, que não combinam com os avanços da civilização humana. 
Reduzir esse tipo de comportamento imbecil à sua real insignificância vai resultar na abertura de possibilidades reais de fortalecimento da autodeterminação dos negros, das mulheres, dos homossexuais e de todos os seres humanos que são vítimas de preconceito e de exclusão social. Enfrentar, com firmeza, as ideias do preconceito e do ódio, será a forma de evitar a contaminação da opinião pública pelo vírus da insensatez.    

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Pensamento de esquerda e os ataques da direita

As ideias socialistas e libertárias são favoráveis ao desenvolvimento pleno das potencialidades humanas. A defesa teórica da extinção da sociedade de classes e a prática cotidiana da solidariedade e da generosidade fazem parte do perfil das mulheres e dos homens de esquerda.
No decorrer da história, os socialistas conseguiram alcançar algumas vitórias importantes e, por outro lado, também sofram derrotas fragorosas. Entre as vitórias podemos citar as revoluções socialistas e os avanços da civilização humana, mesmo no capitalismo. 
Em certas situações conjunturais, pessoas de esquerda assumiram posições nos governos ou posturas públicas de defesa de administrações socialistas ou democráticas. Também é comum o alinhamento com movimentos sociais populares. 
Esse posicionamento é mais visível quando é de um artista ou intelectual com influência na opinião pública. Nestes casos, os ideólogos do capitalismo fazem de tudo para confrontar e ofender o comportamento libertário.
Figuras públicas como Chico Buarque de Holanda e José de Abreu foram atacados em lugares públicos, por pessoas que declaram pensar diferente deles, e os confrontos só não tiveram maiores consequências porque os artistas não prolongaram o conflito.  
A onda de ódio que assola o Brasil tem porta vozes nos grandes veículos de comunicação, e parte dos comunicadores defendem ideias como a diminuição da maioridade penal, o linchamento de seres humanos e a homofobia. Além da defesa de ideias que não combinam com os avanços da civilização humana, eles atacam artistas e intelectuais que se posicionam a favor dos interesses das classes populares.
Uma apresentadora de telejornal, conhecida por defender o linchamento de seres humanos e pelo posicionamento político de extrema direita, resolveu atacar artistas como Bianca Comparato, Camila Pitanga, Leandra Leal, Gregório Duvivier, Marcos Palmeira e Wagner Moura, nas redes sociais. Ela chamou os artistas de "idiotas inúteis". Esse tipo de comportamento odioso pode provocar que pessoas comuns sigam o péssimo exemplo do ódio capitalista, manifestado no rancor pessoal.
A atitude da apresentadora não é somente uma ofensa pessoal aos artistas que ela citou. Ao dizer o que disse, ela atacou todas as pessoas que sonham com um mundo melhor e mais justo. A ofensa pessoal, que a mídia tradicional pode pretender tratar como um bate-boca entre celebridades, tem a intenção de atacar o pensamento libertário, e as figuras públicas que, diferentemente dela, defendem ideias de igualdade entre todos os seres humanos. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sociedade de bandidos soltos

A paralisação dos policiais do Espírito Santo revelou novos tipos de delinquentes. Segundo o psicólogo e teólogo Sérgio Oliveira "se precisamos de polícia para sermos honestos, somos uma sociedade de bandidos soltos". Câmeras de vigilância de lojas e supermercados flagraram cidadãos comuns participando de saques e depredações. 
A ocorrência de saques a lojas e supermercados não é incomum durante paralisações de militares ou em ocasiões de revoltas contra ações policiais. Ocorreram fatos desse tipo, muito recentemente, na região metropolitana de Recife e de Salvador. Os saques  também não são exclusividade brasileira. Recentemente ocorreram episódios no México, na Inglaterra, na Argentina e nos Estados Unidos.
É evidente a existência de uma crise ética em nosso país, o que amplia a quantidade de pessoas dispostas a cometer atos ilícitos, atitude costumeiramente restrita a bandidos conhecidos, a organizações criminosas e a políticos corruptos. Por outro lado, é óbvio que parte das ações envolvendo pessoas insuspeitas se deve ao desespero causado pela enorme desigualdade social existente no Brasil. O problema é que estas ações individualizadas não contribuem para a organização das classes populares, e causam uma repressão violenta, sempre desproporcional aos atos praticados, e sempre contra os mais pobres e contra os movimentos sociais populares. 
O furto famélico, algo que não é espantoso na situação de desigualdade em que vivemos, é noticiado, nos grandes veículos de comunicação, como um ato criminoso. Os saques capixabas foram noticiados como se tivessem sido causados, exclusivamente, pela paralisação dos policiais. O noticiário se dedicou a mostrar cenas trágicas do caos, mas se recusou a fazer qualquer tipo de avaliação sobre as causas de comportamentos condenáveis, talvez porque, na origem da crise ética esteja, justamente, a ação midiática, que valoriza a posse individual de bens e secundariza a solidariedade e a generosidade; e no sistema capitalista, que aumenta a revolta dos excluídos pela concentração de renda e de riquezas. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Golpismo e luta de classes

A justificativa dos golpistas para a destituição da presidenta Dilma Roussef (o combate à corrupção), não tem qualquer relação com a verdade dos fatos. Não há nenhuma acusação provada contra ela. Muitos dos integrantes do governo sem voto (inclusive o próprio Michel Temer) são acusados e suspeitos de desvio de dinheiro público, e isto não é motivo para uma renúncia coletiva.
As pedaladas fiscais, justificativa institucional para o processo de "impeachment", também não se sustenta. O funcionamento regular da estrutura dos poderes públicos, desde muito tempo, depende do financiamento obtido junto ao bancos estatais e privados. Eventuais atrasos na devolução de valores, especificamente tomados como empréstimo a bancos estatais, não é motivo de falta de lisura na administração pública. A atitude se explica pela razão que deu causa ao empréstimo.
Os argumentos falaciosos, tanto em relação ao combate à corrupção como sobre as pedaladas fiscais, serviram para a efetivação do golpe e para a chegada ao governo de um grupo subserviente aos interesses do capitalismo brasileiro e internacional. A principal motivação do golpe é a destruição de um projeto democrático e popular que, ainda que não seja suficiente para dirimir todas as desigualdades sociais, poderia construir um caminho de recuperação da dignidade da maioria da população brasileira.
Enfrentar o golpismo, portanto, vai muito além da adaptação ao calendário eleitoral. Derrotar o governo sem voto, e seus sucedâneos, vai exigir uma mobilização de maior qualidade e de grande envergadura, capaz de retomar o caminho das conquistas sociais e econômicas e de, ao mesmo tempo, estabelecer condições efetivamente democráticas, que afastem a possibilidade de interferência do poder econômico nas instituições. O golpismo e o governo sem voto atendem, prevalentemente, os interesses das classes dominantes. Reconstruir as bases de uma verdadeira democracia começa, em primeiro lugar, por priorizar as demandas populares e as revindicações dos trabalhadores. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Religiosidade, liberdade e diversidade

Uma vereadora de Araraquara se recusou a ler um trecho da Bíblia na sessão do legislativo municipal daquela cidade. A atitude de Thainara Faria, uma jovem de 22 anos, causou polêmica porque ela, ao se recusar a fazer a leitura (prevista no regimento interno), explicou os motivos da sua atitude.
Se ela tivesse se recusado e ficado quieta, o tema não teria se tornado assunto de vário veículos de comunicação.
A atitude da vereadora araraquarense deveria servir de referência para o encerramento de uma experiência excludente dos poderes públicos. Em todo o país, majoritariamente católico, é comum o uso demagógico da religiosidade da população.
A leitura da Bíblia, que também contemplaria integrantes de outras religiões cristãs, exclui muçulmanos, budistas e praticantes de religiões afro-brasileiras, que não tem a Bíblia como referencial de leitura e de comportamento, numa demonstração de intolerância religiosa que não combina com o papel dos poderes legislativos, que é de contemplar, proporcionalmente, a diversidade existente em cada comunidade. 
A jovem parlamentar de Araraquara é cristã e católica. Sua atitude não foi motivada por nenhum senso de defesa de uma religião minoritária, mas está baseada na defesa da laicidade dos poderes públicos. A atitude de Thainara deve servir de exemplo para todas as pessoas que defendem a liberdade religiosa e que se orgulham de viver a diversidade que a civilização humana conquistou.